Only in silence the word,

only in dark the light,
only in dying life:
bright the hawk’s flight
on the empty sky.

— «The Creation of Ea», in O Feiticeiro de Terramar de Ursula le Guin

Creio que foi Isaac Asimov o primeiro escritor a lançar a moda das trilogias na literatura fantástica com a sua série da Fundação. Seguiu-se O Senhor dos Aneis e o fabuloso The Hitchicker´s Guide to the Galaxy de Douglas Adams. A partir daí, foi um fartar vilanagem.

Curiosamente, estas trilogias têm sempre mais de três volumes. O Hobbit faz parte do universo do Senhor dos Aneis, o Guia tem 5 volumes, a Fundação viu-se acrescida, recentemente, de mais 3 volumes. A trilogia de que nos ocupamos hoje tem 4 volumes, só três ainda editados em português na Argonauta. Com todo o lixo que há por aí sobre feiticeiros e dragões, vale a pena recordar “the real thing”.

Falamos do Feiticeiro de Terramar, de Ursula le Guin, uma autora que tanto escreve mainstream como papa prémios na área da ficção científica. Terramar é um mundo quase todo coberto de mar, salpicado de arquipélagos, onde a magia é ferramenta indispensável ao viver do dia-a-dia e a feitiçaria uma profissão respeitada.

Conseguem-se fazer feitiços conhecendo o nome verdadeiro de cada ser, o nome que lhe foi concedido no início da criação. É isso que os alunos da escola de feitiçaria aprendem e com esse conhecimento controlam os ventos, mudam de aspecto, curam doenças, etc…

O Feiticeiro de Terramar narra a vida de Gavião, um jovem guardador de cabras com uma apetência natural para a magia, desde que entra na escola até atingir o cargo de arquimago. Ao contrário de Harry Potter, toda a narrativa é centrada no respeito pela natureza, num mundo de agricultores e marinheiros, numa atitude de recolhimento interior e ternura e respeito pela vida. Não há bons contra maus. Há forças do bem e forças do mal que coabitam em cada ser humano e a luta que se trava é interior.

E há os dragões, imensos de tamanho e idade, que falam a língua original. Os dragões de Terramar fazem com que todos os outros dragões da literatura pareçam bonecos de plasticina. O leitor sente-lhes o calor do bafo à distância, encolhe-se ante a visão das suas garras, evita olhá-los nos olhos.

Durante a sua formação na escola dos magos, Gavião (de seu nome real Ged), trava um duelo de conhecimentos com um colega e o seu orgulho fá-lo invocar um ser do mundo dos mortos. O resultado é a libertação de um ser negro e aterrador que o ataca e que exige a intervenção do arquimago da altura para ser afastado. O arquimago morre no encontro e Ged fica em coma, com o rosto desfigurado. Recuperando lentamente, acaba por terminar o curso e parte para as ilhas, aplicando o seu saber junto dos mais desfavorecidos que peçam os seus serviços.

Mas há um temor que o persegue. Conhecidos seus alegam ter visto uma figura brumosa, semelhante a Ged, cada vez mais perto. Ged vai fugindo da figura que libertou na adolescência, mas o mal aproxima-se cada vez mais dele. Um dragão que Ged forçara a abandonar uma ilha de pescadores que queria habitar, propõe-lhe revelar o nome da figura misteriosa, se Ged o libertar do seu domínio. Ged não cede, mas fica a saber que a Coisa tem nome. Quando souber tal nome poderá dominá-lo.

E os dois acabam por se encontrar frente a frente e Ged compreende qual o nome do Outro.

Não vou retirar o interesse do primeiro volume da trilogia, mas, se o leitor adivinhar qual o nome do Outro, e como este pode ser dominado, está pronto para entrar na escola dos feiticeiros.

A trilogia Terramar em português:

O Feiticeiro de Terramar, colecção Argonauta nº 276

Os Túmulos de Atuan, colecção Argonauta nº 284

O Outro Lado do Mundo, colecção Argonauta nº 93

= Artur Tomé =

4 thoughts on “Ged, o feiticeiro que Harry Potter gostaria de ser quando for crescido

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