O plano era simples: dois dias em Atenas e outros dois divididos por duas ilhas, com o objectivo de não mexer uma palha e dar uns mergulhos no mar Egeu – mas quis Éolo que fossemos soprados noutras direcções.

Chegados ao porto de Piraeus, descobrimos que os ferrys estavam parados graças à tempestade que se aproximava e que foi espirituosamente apelidada de medicane: o ciclone Zorba (sim, leram bem).

A alternativa envolvia viagens de táxi com valores de 3 dígitos e, após uma troca de ideias com um marinheiro russo igualmente apeado, decidimos ir os três para a outra ponta da cidade, apanhar um expresso para os respectivos destinos. O marinheiro russo para junto da família, e nós para Delfos, de onde seria mais seguro conseguirmos voltar. Partilhámos a viagem de metro e uma longa travessia da maior concentração de oficinas e stands que alguma vez vi numa zona residencial, e fomos conversando sobre o panorama na Rússia, onde até se pode criticar o governo em público, mas é provável que depois tenham a conta congelada por uma razão ou outra. “Há países que têm mafias, mas a Rússia é a única máfia que tem um país.”

Seguem-se três horas de viagem por paisagens absurdamente magníficas. Cada vez mais acho que as montanhas se ouvem melhor no silêncio do tempo frio, e este percurso foi alternando planícies soalheiras com cumes escondidos entre nuvens densas. Pelo caminho apareciam construções que nunca deixam perceber se foram abandonadas a meio ou destruídas algures no tempo – e o que apenas consigo chamar de enromes plantações de painéis solares.

Delfos é mais turística do que Atenas no sentido em que tudo o que existe é direccionado a visitantes. Nas ruas só se encontram hotéis, restaurantes e lojas de souvenirs, desde porta-chaves a joalharias, e todos com nomes como Hotel Hermes ou Cantinho de Atenas ou Taberna do Baco. É levar com clichés helénicos de todas as frentes.

Mas, ao contrário de Atenas, não nos sentimos esmagados pelo Turismo. Talvez seja o ar calmo da montanha, ou talvez o mau tempo tenha afastado as hordas – a verdade é que me senti bem menos turista naquela aldeia com ar de postal.

Ironicamente, Delfos já atraía turistas há quase 3000 anos atrás. Considerado pelos gregos antigos como sendo o umbigo do mundo, recebia visitantes que chegavam a fazer milhares de quilómetros para visitar o Oráculo no Templo de Apolo: uma sacerdotisa (a famosa pítia) que, sentada num tripé a inspirar fumos suspeitos, saídos de uma fenda no chão, revelava profecias ambíguas e indecifráveis a quem a consultava.

A antiga imponência do santuário está, hoje em dia, na vista do magnífico monte Parnasso (ou nas estátuas, frisos e artefactos agora a residir no museu ao lado). Mas não há como andar pelas ruínas e subir o santuário até ao estádio e não sentir que estamos em solo sagrado – com ou sem sibilas.

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Posted by:M

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